Uma mulher de muitas histórias

 

“É uma casa de esquina, com grade marrom e um pinheiro na frente.” Assim Iraci Casagrande Koppe descreveu onde mora, desde 1985 em Gramado. Era uma ligação telefônica, daquelas para número fixo, coisa do passado.

E de passado, Iraci entende. Com 87 anos, a 1ª Rainha das Hortênsias coleciona histórias. A lucidez e a memória da escritora e pesquisadora gramadense impressionam.

É bem verdade que ela não nasceu por estes pagos. Mas isso é mero detalhe: com 5 meses de vida, os avós Henrique e Pierina Bertolucci a trouxeram de Capinzal, SC, para viver em Gramado.

Eles  a criaram como filha. Iraci  cresceu no Hotel Bertolucci, que pertencia a sua família. Aquele foi um dos primeiros hotéis a surgir por aqui. Curiosa que só ela, conversava muito com os hóspedes, era uma forma de adquirir conhecimento e experiência.

Leitora assídua desde sempre, a cidadã gramadense (título recebido em 1995) queria voar. O sonho dela era se tornar soprano lírico, porém para isso, teria que deixar a cidade. A avó, temendo pela neta, não permitiu que Iraci fosse embora. Para a sorte dos jovens de plantão, a moça que arrancava suspiros por onde passava, se dedicou a participar de eventos beneficentes, concursos e festas na comunidade.

“Eu estava sempre em algum lugar, recebia muitos convites, inclusive de casamento”, revelou com uma gargalhada contagiante. Ela despertou muitas paixões, mas só um homem ganhou seu coração: Amandio Koppe.

Eles se uniram aos laços do matrimônio em 1962 na Igreja São Pedro. Abençoados, rumaram para a capital gaúcha, onde moraram por 20 anos. Duas décadas mais tarde, Amandio estava  com a saúde debilitada, motivo do retorno do casal para a querida Gramado. Na bagagem, trouxeram a filha Lilian e a vontade de respirar o ar puro da serra novamente.

 

SAUDADE

Iraci presenciou todas as grandes transformações que Gramado passou ao longo dos anos. O pequeno vilarejo de imigrantes europeus foi aos poucos se tornando um polo turístico.

Em meados dos anos 90, já viúva, a nostalgia bateu à porta. Ela leu no jornal local uma crônica que rememorava os anos dourados da cidade que tanto amava. Aquele texto despertou em iraci a vontade de compartilhar as próprias memórias.

“Sentei embaixo de um plátano e comecei a escrever, com papel e caneta mesmo.” Logo, as histórias de Iraci tornaram-se constantes no periódico. O caminho já não tinha mais volta: nascia uma escritora. Foram 6 obras publicadas, algumas em parceria com o amigo e também escritor, Carlos Gilberto Drecksler.

A última, lançada em 2018 “O lago, as hortênsias e o turismo”, ela fez questão de assinar sozinha. O livro é um precioso arquivo, fruto de muita pesquisa. A dedicação de Iraci para conservar a história viva, já lhe rendeu muitas homenagens. Ela acumula prêmios e ainda recebe chamados. Só este ano, já tem duas ocasiões importantíssimas: será a embaixadora da Festa da Colônia e patrona da 24ª edição da Feira do Livro de Gramado.

“Estão variando. Como assim eu serei a patrona da feira do livro?” Modesta, se mostrou surpresa com a notícia.

Ela não esconde a satisfação e o orgulho de estar contribuindo com o futuro através do passado. Em tempos de smartphones, a avó do pequeno Enrico, de 3 anos, prefere se abster dos celulares.

“Minha filha me deu de presente, eu só agradeci. Prefiro a vida real, visitar as pessoas pessoalmente, sair para tomar um café com meus amigos, brincar com meu neto. Vejo todos com as cabeças baixas fuçando nestes aparelhos, eu não quero viver assim”.

Simples, mas elegante,  a ilustre moradora de Gramado revela que o segredo para viver plenamente é desejar e fazer o bem. Ela não assiste a noticiários, prefere não ver as desgraças.

“A única coisa que posso fazer é rezar por toda essa gente. Assistir a televisão não vai mudar nada, só  causar mal-estar.”

Caminhar, comer pouco e ingerir muito líquido são outras dicas de Iraci para a longevidade. Devorar sem limites somente os livros, seus companheiros de toda a vida.

PRESENTE

Olhar para traz talvez seja a lição mais importante que aprendi durante as mais de duas horas de conversa com a Iraci. Afinal, somos o resultado de tudo o que vivemos até aqui. As pessoas que nos relacionamos, os filmes que assistimos, os livros que lemos, as viagens que fizemos.

Todas as escolhas do passado nos trouxeram onde estamos hoje. Neste exato momento. Tudo o que fizermos agora será refletido no futuro.  Qual o legado que você quer deixar para o mundo?

Hoje é o Dia Internacional da Mulher e o meu presente foi ter conhecido a Iraci Casagrande Koppe e dividido um pouquinho da biografia dela contigo.

Obrigada Iraci, obrigada à todas as mulheres que, de uma forma ou de outra, deixam o nosso mundo mais colorido.

 

 

Texto: Suilan Conrado

Foto: Suilan Conrado

 

 

 

 

 

 

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