Os Melhores Álbuns Nacionais de 2019 – Parte 01

Por @igokampf / Canto Livre

Em uma época em que a cultura nacional é constantemente atacada, cada acorde soado, cada estrofe cantada e cada música lançada é um ato de resistência e amor. São justamente nos momentos em que tudo parece cada vez mais difícil de suportar que a arte se faz tão necessária. Portanto, o desafio de escolher os melhores álbuns brasileiros foi ainda mais difícil neste ano. Pois todos os artistas que, em 2019, decidiram entrar em estúdio e gravar suas canções superaram ainda mais adversidades do que nunca. Mas o fizeram mesmo assim, sabendo da necessidade de expor – através da melodia, dos instrumentos, da poesia e da criatividade – seus sentimentos, sejam eles quais forem. É urgente nos unirmos, não importando idade, estilo musical, lado político ou qualquer outra diferença. Todos amamos a música, isso é o bastante. E, com ela, podemos, unidos, defender nossa identidade, nossas florestas, nossa cultura, nosso povo, a democracia e a liberdade, combatendo os retrocessos, a desigualdade, a censura e todo mal que parece a cada dia nos consumir mais.

Sem mais delongas, vamos ao que interessa. A série, que seria de 25 discos lançados no Brasil neste ano, mudou, de última hora, devido a um lançamento deste último fim de semana. Chegamos então, aos 26 Melhores Álbuns Brasileiros de 2019! Vindos das cinco regiões do Brasil, apresentam uma diversidade incrível de estilos. Além de, muitas vezes, se misturarem, pois a maioria dos lançamentos contam com participações especiais em suas faixas, principalmente de outros artistas que também estão na lista. Justamente expondo a ideia de união sem fronteiras que ressaltei antes. Os critérios para a escolha foram diversos, sempre com uma boa dose de gosto pessoal, é claro. Além dos 26 selecionados, muitos outros ficaram de fora e alguns serão citados para quem quiser expandir ainda mais seus conhecimentos sonoros. Afinal, 2019 foi um grande ano para a música brasileira, apesar de tudo. Cada álbum apresentado conta com seu link para o Spotify e, ao final da matéria, temos uma playlist com as 100 melhores músicas nacionais lançadas em 2019. Boa leitura e boa audição!

26- As Tubas – Corpo

Gravado ao vivo e lançado através de financiamento coletivo, o álbum de estreia do coletivo feminista gaúcho As Tubas foi que me fez adicionar uma nova colocação na lista dos melhores de 2019 do Canto Livre. Ouvi as 12 belíssimas canções que compõem o disco no último sábado e decidi que não tinha como deixar esse trabalho de fora. No entanto, também não consegui tirar nenhum dos outros 25 já listados. Então, temos a nossa 26ª colocação. Que poderia estar melhor colocada, sim. Cada vez que ouço os poemas, as lindas melodias tocadas com violino e instrumentos de percussão e a força que essas quatro artistas passam nas suas canções, eu gosto ainda mais e mais de Corpo. Um registro que fecha muito bem esse 2019 cheio de resistência, de feminismo, de luta contra o conservadorismo e por mais direitos e liberdade.

Conheci As Tubas em abril deste ano, no Festival Pira Rural. Já naquele show, a canção Toda Cambia me fez chorar. Emocionante demais! Outra que merece destaque, é Grávida, que conta com a participação especial da incrível Paola Kist nos vocais. O grupo tem tocado em todos os principais festivais gaúchos e deve ganhar o Brasil em 2020! Infelizmente o álbum não está disponível no Spotify ainda, mas pode ser ouvido na integra aqui no Youtube.

25- Ana Frango Elétrico – Little Electric Chicken Heart

Grata surpresa conhecer a artista carioca Ana Frango Elétrico em 2019. Já nos primeiros minutos da música que abre o seu segundo disco, ela surpreende com uma bossa nova chamada Saudade, que parece vir lá do início dos anos 60. Mas tem, sim, aquela pitada divertida e inesperada que, vim a perceber, é característica dela. Ao longo do álbum, vemos tantos elementos que, se não fosse o vocal característico de Ana, poderíamos imaginar estar ouvindo algo totalmente novo. Na música Se no Cinema, por exemplo, me senti dentro de um disco da Rita Lee no início da década de 80 e, em Caspa, em uma deliciosa roda de samba na Lapa. Um disco leve, que brica com ritmos, melodias, palavras e, mesmo quando toca em pontos importantes, como em Torturadores, não perde a alegria. Um trabalho para se ouvir várias vezes e sempre se sentir um pouquinho mais feliz com a vida e encantado com a srta. Frango Elétrico. Ouça no disco no Spotify!

24- Juliana Perdigão – Folhuda

A mineira Juliana Perdigão trouxe em seu terceiro disco uma mistura de vários estilos para musicar poemas de grandes artistas. Abordando temas importantes – como feminismo, sexualidade e política – ela canta de forma sutil e agradável, dando leveza às obras escolhidas. O trabalho da cantora conta ainda com várias participações especiais, como de Arnaldo Antunes, na ótima Torresmo, e das artistas Ava Rocha, Angélica Freitas, Cecília Lucchesi, Iara Rennó e Tulipa Ruiz na urgente Mulher Limpa, poema que também se faz presente no trabalho d’As Tubas. O álbum contou com a produção de Thiago França, do trio Metá Metá e pode ser ouvido no Spotify.

23- Julio Secchin – Festa de Adeus

Julio Secchin ganhou o Brasil (e meu coração) em 2019 com o hit Jovem. Mas não foi só isso que ele fez! O produtor carioca também lançou o seu álbum de estreia Festa de Adeus, que traz mais oito ótimas canções dando sequência ao ritmo melancólico/divertido que o tornou conhecido no single anterior. Com belas letras, abordando temas bastante atuais, a leve voz de Julio se une a ritmos bem brasileiros, lembrando momentos de Caetano Veloso e Jorge Ben Jor. Canções como Boi Tolo e Ketamina trazem essa visão dos dias atuais com uma abordagem pra cima, dançante e com várias pitadas de ironia. Um álbum bem brasileiro e que abre muito bem a carreira musical de um nome já conhecido do meio artístico nacional há muitos anos. Que siga assim! Ouça a Festa de Adeus, do Júlio Secchin, no Spotify!

22- Cigana – Todos Os Nós

Outra grata surpresa de 2019! A banda paulista Cigana lançou já em abril seu primeiro álbum. Misturando o rock alternativo com MPB, trazendo várias pitadas de jazz e post rock , as oito músicas variam entre o peso de uma banda de rock e profundas poesias abordando temáticas de autodescobrimento, relacionamentos e as dificuldades da vida adulta. A abertura do álbum é com a sensacional psicodélica Lua em Escorpião. Outro destaque é para o excelente instrumental em Existem Coisas que Não Dá Pra Explicar, que introduz para um refrão lindo, misturando os vocais masculinos e femininos da banda. Uma obra! Ouça no Spotify!

21- Quarto Sensorial – O Escapista

O trio instrumental gaúcho ressurgiu em 2019 com seu novo álbum. Menos “viajado” que os anteriores, o primeiro trabalho da banda desde 2014 traz canções curtas e intensas. Apesar do formato diferente, a certeza é de muita qualidade, quando baixo, guitarra e bateria se unem nessa fusão de gêneros que é característica desde o princípio da Quarto Sensorial, há mais de uma década. Mas, fugindo das mesmice, a banda procurou novos elementos e se aproximou do que é a experiência (incrível) de vê-los ao vivo. Um dos grandes nomes da música instrumental brasileira que se reafirmou neste ano de uma forma mais direta e até em certos momentos agressiva. Discaço! Ouça no Spotify!

20- Supervão – Faz Party

Um dos grandes nomes da nova geração da música gaúcha é a banda Supervão. Em 2019 o trio enfim lançou seu primeiro álbum, o mais maduro e dançante Faz Party. Bastante psicodélico e experimentando batidas eletrônicas muito interessantes, não busca profundidade nas suas letras, investindo mais nos sentimentos que as músicas passam. O vocal, muitas vezes, passa a ser mais um instrumento dentro da viagem que a música proporciona. Entrando na onda da nova MPB, investe em diferentes estilos da música nacional em meio aos beats, transformando a audição em processo experimental incrível. Um disco para se soltar de padrões e curtir as possibilidades que ele propõem. Confira o álbum no Spotify!

19- Jorge Mautner – Não Há Abismo Em Que o Brasil Caiba

O primeiro representante da velha guarda da música nacional presente na nossa lista é o carioca Jorge Mautner, que lançou seu primeiro álbum em 13 anos. Refletindo sobre a sociedade brasileira e sua própria vida, Mautner retorna com seu vozeirão e se preocupar em manter estilos. Criativo, como sempre, o músico mistura temas leves como o nascimento de sua filha e de sua neta, religiosidade e reflexões políticas, algumas vezes na mesma música, como na ótima Oy Vey, Oy Vey. Por vezes declamando, por vezes cantando, o veterano artista mostra urgência em letras de músicas como Marielle Franco, onde clama pelo combate ao racismo, ao neo-nazismo e ao anti-feminismo, fazendo uma homenagem à vereadora carioca assassinada em 2018. Mas, apesar de destacar temas delicados, Mautner não deixa de lado a esperança. Bastante importante o retorno de nomes como este em momentos complicados como o que vivemos. Ouça o álbum no Spotify!

18- Karina Buhr – Desmanche

Já nos primeiros segundos do seu quarto álbum, Karina Buhr dá o tom que vai seguir. Com discurso forte e percussão pesada, ela alerta que “o Exército tá matado”, referência direta ao músico fuzilado com mais de 80 tiros em maio deste ano no Rio. Lembrando o maracatu do Nação Zumbi, a cantora baiana retoma em diversos momentos do novo trabalho seu ótimo jogo de palavras crítico e o ritmo dançante do seu “punk rock de tambor”. No entanto, em canções como Amora, traz leveza, poesia e desilusões amoras para conversar diretamente com o ouvinte. Uma belíssima canção, diga-se de passagem! Cada uma das 10 músicas de Desmanche têm sua história, cada uma vale ser ouvida com atenção e aproveitada em sua totalidade. Um ótimo álbum de uma artista que parece estar no melhor momento de sua carreira! Ouça no Spotify!

17- Emicida – AmarElo

Esse é uma presença certa em todas as listas de melhores do ano. Emicida rompeu barreiras em AmarElo, ganhando o Brasil já com a música título e um excelente clipe. Mas ao longo de todo álbum o tom segue no mesmo nível e a qualidade é enorme. Um grito reprimido de milhões de pessoas que veem todo o absurdo social que passa o Brasil sem ter para onde fugir. E, apesar de ser uma mensagem pesada e urgente, o músico optou por um tom mais leve, se aproximando da MPB e interagindo com artistas como Zeca Pagodinho, Pabllo Vittar, Dona Onete e até da atriz Fernanda Montenegro. Trouxe um resumo do Brasil que hoje clama por democracia e pelo fim da desigualdade. Ouça no Spotify!

16 – Nomade Orquestra – Vox Populi/Vox Machina

A ótima banda instrumental trouxe para 2019 uma ousada proposta. Dois álbuns, um com vocais e outro, como resposta, fazendo releitura das mesmas músicas, da forma clássica que a banda está acostumada, sem vocalista. Primeiro veio o Vox Populi, trazendo a voz do povo, com quatro participações muito especiais, cada uma cantando duas músicas: Russo Passapusso, Juçara Marçal, Siba e Edgar. Cada um trouxe seu estilo próprio para a música, levantando temas necessários, algo apenas possível com o poder da voz – hoje tão importante. Alguns meses depois, veio a resposta da “máquina”, com a big band fazendo versões dela mesma, instrumentais, levando o processo de produção a outro nível. Uma ideia interessante e que funcionou muito bem, tanto que a partir deste processo a Nomade Orquestra tem excursionado com vocalistas fazendo participações especiais em seus shows. Ouça o Vox Populi e o Vox Machina no Spotify!

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